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Desabafo Barato: Quem conta seus males espanta (parte 2)

Segui querendo acreditar que estava tudo bem, que muita coisa era realmente projeção da minha cabeça e que tudo ia ficar bem. Não foi bem isso que aconteceu.

A nossa cabeça pode ser muito traiçoeira com a gente, mas ignorar o que o corpo está tentando nos mostrar pode ser uma forma de negligenciar nossa saúde.

Passado alguns dias que escrevi o primeiro texto tive crise de rinite por uns 3 e quem tem sabe como funciona: espirro, coriza, muita coceira no nariz e quanto vem mais forte, ataca até a sinusite. Até aí tudo bem. Nesse mesmo período o Duda estava tossindo e espirrando bastante. Chegamos a pensar também na loucura que é esse tempo em Porto Alegre.

Após esses dias de crise de rinite eu comecei a sentir uma leve falta de ar, bem sutil mesmo. Isso me tirou o sono e os dias. Fiquei encucada e falei pro Duda fazer o teste e eu tinha consulta com o infectologista para levar o resultado dos meus exames. Eu estava disposta a pagar pelo teste de sangue, mas daí acontece que o médico estava de licença com suspeita de covid e não conseguiram me avisar em tempo. Eu expliquei para a atendente a situação (que eu queria um pedido para fazer o exame) e ela, muito querida, me orientou: passa na emergência, diz que está com algum sintoma gripal que eles com certeza irão fazer o exame novamente e você ainda economiza.

Essa já era minha terceira vez na emergência. Estava bem vazia e o Duda já estava em processo de atendimento por conta dos sintomas gripais. Estava vazia e aproveitei o embalo para ser atendida também. O real motivo de fazermos da nossa consulta nem era tanto pelos sintomas gripais do Duda ou pela minha crise de rinite. Nós queríamos ver nossos pais. Eu passei dias chorando e querendo o colo da minha mãe e do meu pai. Eu fiquei obcecada com a ideia de passar um tempo com eles. E o Duda tem o pai dele que mora sozinho em Pelotas e ele estava preocupado com isso. Então o motivo principal era saber se a gente estava bem o suficiente (sem covid) para poder ver nossos pais.

Ninguém precisou mentir nas consultas. Eu falei da crise de rinite, falei da falta de ar e falei que queria ver meus pais, que moram no Rio. O médico achou muito prudente da nossa parte queremos ser testados para ver nossos pais (ele o Duda e depois na sequência). No meus caso, como falei da sutil falta de ar, ele me encaminhou para o raio x (já era o segundo), e como da primeira vez, não deu nada. Me receitou remédios para a rinite e fizemos o teste PCR (eu, pela segunda vez). Pra quem não sabe, o PCR é aquele teste do cotonete gigante que coletam secreções através do nariz até a orofaringe e depois coletam da garganta. É muito desconfortável, mas é eficiente caso você já tenha sintomas gripais ao menos por uns 4-5 dias. O de sangue só detecta a covid depois de muitos dias de sintomas, o que não ajuda muito para casos se agravam rápido.

Dia 18 de agosto foi o dia do teste e desde então atualizava toda hora a página do site que dizia o resultado. Dia 20 de agosto, eu estava preparando meu café e o Duda fala: o resultado saiu. E na mesma hora perguntei: e aí? Quando ele disse POSITIVO eu não tive nem coragem mais de olhar o meu. Ele me abraçou, eu chorei, segui vários dias chorando e aquela vontade absurda de querer estar com meus pais só aumentou e não tinha o que fazer a não seguir isolamento total.

Se antes eu vivi momentos ruins, acho que eu sofri tanto antes com a ideia de poder estar com covid que passei uns dias anestesiada. Era choro e tristeza profunda, mas sem o desespero de antes.

Passado alguns dias o Duda perdeu o olfato e paladar (até hoje não voltou ao normal) e meu quadro de falta de ar começou a ficar um pouco mais preocupante. Como as crises de ansiedade e esse sintoma da falta de ar e aperto no peito, tudo pode ficar muito confuso. Tirando os dias de rinite atacada e fraqueza muscular, faço uma observação importante aqui: dentro de todos os sintomas característicos de covid, eu não tive  tosse, eu não tive febre, eu não tive dor de garganta durante esse período, não tive coriza, não tive dor no corpo, não tive dor de cabeça, não tive vômito e nem diarreia.

Depois que testei positivo e passei a conversar com mais frequência com meu tio, que também teve covid, pneumonia e 50% dos pulmões comprometidos. Ele me deu dica de livro, podcast (é um assunto para outro Desabafo) e eu estava me apegando a tudo, porque precisava me apegar a algo.

Dia 28 de agosto decidi que voltaria na emergência porque a falta de ar não parecia mais com ansiedade. Tinha alguma coisa errada. Na consulta eu nem dei muito tempo para conversa, até mesmo porque eles têm todo meu histórico, desde de o primeiro dia que pisei na emergência. Falei: quero uma tomografia. expliquei que queria sair dali com a certeza de que era só coisa da minha cabeça. Ela achou muito prudente fazer o exame sim e prontamente me encaminhou.

Passada algumas horas, que pareciam uma eternidade, fui chamada de volta ao consultório. A médica (que já era outra, pois a primeira encerrou o plantão) estava lendo no computador o laudo e me disse calmamente: você está com uma leve pneumonia. Aquela palavra era tudo que eu não precisava ouvir. Desabei bem ali na frente dela e falei: doutora, eu não quero morrer. Ela ainda bem calma me explicou que teve covid e sabia bem como era. Falou também para eu me apegar a esse número: menos de 25% dos pulmões comprometidos e que isso não era um sinal ruim. Ela foi bem clara: você vai iniciar o tratamento hoje e vai seguir tudo isso aqui que vou prescrever e tomar exatamente como eu explicar.

Saí dali e fui direto para a farmácia. Comprei tudo que foi receitado, cheguei em casa já iniciando o tratamento e, óbvio, chorando bastante. A notícia abalou um pouco meus familiares e alguns amigos que acompanharam mais de perto a saga. Agora eu não tinha mais nada pra temer. Estava com pneumonia e precisa acreditar no tratamento. A médica me falou que pelo terceiro dia eu já ia me sentir melhor, mas que se eu não me sentisse segura, poderia voltar em um outro plantão dela. E foi o que fiz. A minha oxigenação sanguínea estava 100% (não poderia estar melhor do que isso) e ela ouviu meus pulmões e disse que estava tudo perfeito. Esse era o terceiro dia de tratamento.

Lá pelo quinto dia eu já me sentia melhor. Com mais firmeza para andar, menos dores nas costas, respirando um pouco melhor, ou seja, melhorando. A recomendação da médica era: se sentir melhora depois do tratamento, pode seguir a vida. Eu achei que não era bem assim…

Como eu tinha aquela consulta pendente com o infectologista, marquei uma tomografia no mesmo dia. Foi uma atitude arriscada, já que para fazer a tomo eu preciso de um pedido médico. Fui recebida pelo médico assim: e aí? Estou sabendo que corongou, hein! (ressaltando aquele histórico de paciente que eu disse antes que todos os médicos do hospital têm acesso). Eu só respondi: pois é… Expliquei para ele que me sentia muito melhor, mas que queria ter certeza de que meus pulmões estavam bem. Ele explicou que como não havia tanto tempo assim entre o diagnóstico de pneumonia e essa segunda tomo que queria fazer, que ele me daria o pedido sim, mas que eu esperasse um resultado ainda parecido com o anterior.

Pois bem. Saí da consulta e fui fazer o exame. Fiquei bem preocupada, pois esse foi muito mais demorado que o outro, como se estivessem pesquisando melhor. Para minha tranquilidade, o resultado dessa tomo saiu no mesmo dia e pasmem: regressão total dos vidros foscos (característica da infecção pelo coronavírus) e apenas alguns resquícios residuais. Eu li esse laudo já em casa, na frente do meu computador e eu não conseguia parar de chorar. Não acreditava no que estava lendo. Foi um  dia de vitória na minha vida.

Não sei se todo mundo tem ideia, mas o coronavírus não deixa resquícios somente no pulmão. A respiração ainda fica esquisita, a fadiga é constante, falar durante muito tempo dá falta de ar, dor nas costas, danos psicológicos e eu ainda desenvolvi uma gastrite por conta da maratona de remédios (que já estou tratando).

Alguns podem estar se perguntando agora: quanto exagero? Meus amigos, estamos falando de um vírus que mata pessoas em alguns dias, que não existe tratamento padrão, que varia absurdamente de pessoa para pessoa, que nenhum médico te dá segurança de nada, que tu é, a grosso modo, cobaia. Quando se fala de coronavírus, estamos falando de experimentação. Não existe também tratamento profilático. Cada organismo vai responder de um jeito diferente. É tentativa e erro. Se você não fica assustado com isso, que bom. Tem muita gente por aí que tá achando que é exagero, que é gripezinha, que não conhece ninguém que morreu ou que testou positivo. Acho que a gente deve se manter com pensamento positivo, mas achar que você está imune, que se cuida bastante e que não vai morrer por causa disso, é ilusão. Lembre-se que as estatísticas entre os casos confirmados e que vem a falecer é bem discrepante e é uma minoria que morre. Nessa minoria estão pacientes do grupo de risco, idosos e jovens também (aparentemente saudáveis). E se você parar de olhar só para os números, vai ver que são muitas vidas interrompidas. É muito triste. 

Fiquei pensando em quem mora sozinho e passou por isso. É uma situação em que fica difícil ajudar, as pessoas ficam meio que apavoradas quando sabem que você testou positivo e esse foi um dos motivos de não ter contato até para amigos mais próximos. Apenas 3 pessoas acompanharam de perto toda a saga (desde a primeira parte). Outros amigos entraram em contato pra saber como a gente estava, que estávamos sumidos do Instagram e ficaram preocupados. Daí contei o que estava se passando. Minha família só ficou sabendo das coisas a partir do segundo teste, que foi o positivo. Nem eu sabia lidar direito com o assunto. 

Eu e o Duda tomamos todas as precauções possíveis, fomos extremamente cuidados e até agora a gente se pergunta: onde erramos?

Passei mais de 30 dias afastada do trabalho vivendo os piores dias da minha vida. Os momentos um pouco melhores foram com a minha terapeuta, que é um ser iluminado.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: já está passando.

Quero ressaltar que essa é minha visão sobre o assunto e baseada na minha experiência.


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Por Ingrid

Sou cariúcha que não curte praia e adora chimarrão, casada com o Duda e mãe de duas gatinhas. Meus verbos preferidos: viajar, pechinchar, comer, cozinhar, falar, criar. =)