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Desabafo Barato

Desabafo Barato: Quem conta seus males espanta (parte 1)

A volta do Desabafo Barato está sendo muito importante nesse momento estranho que estamos vivendo.

Contextualizando um pouquinho, quando escrevi a primeira parte eu estava em período de férias e tentado ficar bem da cabeça.

Vou dividir esse desabafo em duas partes. Era só para existir essa primeira, mas a vida tem dessas coisas de bagunçar com a gente e virar tudo de cabeça para baixo. 

Então vamos lá…

Parte 1

Não sei se alguém já disse essa frase antes, mas me veio na cabeça e é apropriada para o momento.

Faz tempo que quero voltar a desabafar por aqui e estou sempre procrastinando. Quando entrei de home office cumprindo o isolamento social pensei: nossa vai ser um bom momento para dividir um pouco desse dias que serão bem loucos. A verdade é que tudo foi e está sendo mais louco do que o que eu esperava (e acredito que pra muita gente também).

16 de março de 2020. Essa foi a data em que deixei o escritório da empresa no estilo Chernobyl. Peguei as coisas mais importantes, passei na farmácia para comprar alguns remédios que considerei importantes ter em casa, tipo vitamina D, Trimedal e Dorflex, e fui como uma bomba pra casa.

Meu marido já trabalha no esquema de home office faz um tempinho e recèm tinha voltado de pelotas, onde fez a semana de home office dele trabalhando de lá. Nesse mesmo dia ele também recebeu orientações pra que continuasse de casa.

A vida estava estranha, mas ainda suportável, até mesmo porque a gente pensava: vai ser só um mês ou dois e é tranquilo. Adoro ficar em casa mesmo, então que mal tem?

Me afundei em trabalho, peguei freela e tudo isso para não ter muito tempo para pensar em covid. Mesmo assim, cada hora que eu passava pela TV durante o jornal só se falava de covid (e nunca eram coisas boas). Eu até tentei me informar um pouco lendo matérias de pessoas que estavam do lado da ciência, sendo diretas e racionais no tema e passando raiva com as declarações daquele que não podemos dizer o nome e que só fala merda.

Até então, as pessoas infectadas pareciam apenas números. Passadas algumas semanas de home office e muito trabalho, recebi a notícia de que meu tio estava com covid. Até acontecer com um parente seu, você leva o assunto de um jeito. Quando chega até um conhecido, parece que a ficha cai, mas cai de uma forma avassaladora. 

Tentei ficar ao máximo em contato com esse tio durante esse período que ele passou, respeitando também a fragilidade do momento que exigia descanso da parte dele. Ele sempre me respondeu com mensagens animadoras e de esperança em sua melhora. Isso me trazia um pouco de conforto. Quase duas semanas de contato e pegando notícias com ele e com a minha família, fomos recebendo respostas de melhora, até que ele saiu do isolamento que estava na própria casa, trancado em um cômodo e alguns dias depois já precisava voltar para o trabalho.Meu coração se acalmou.

E voltamos para a rotina que parecia normal, mas estava disfarçada de problemas. E são problemas que você nem se lembra que tem porque a rotina de antes do isolamento faz a gente se distrair. A maioria das pessoas tem um ritual para se arrumar e sair de casa, fazer uma rota para chegar ao trabalho, pratica algum esporte, faz algum curso, almoça com os colegas de trabalho, faz happy hour, escolhe ficar em caso ou um monta um plano para fazer algo diferente no final de semana. Eu cheguei à conclusão de que o isolamento tirou nossas distrações e ficamos mais tempo olhando pra dentro da gente. Às vezes, isso pode ser assustador.

Nesse quase 5 meses de isolamento eu nunca me vi tão frágil. Me peguei em um descontrole emocional absurdo. Uma tristeza bateu e não queria mais sair. No início, eu tentei preencher as lacunas com coisas que eu gostaria de ter mais tempo para fazer, mas que estava sempre sem tempo. Usava meus horários pós trabalho e finais de semana para jogar, fazer comida, pintar, estudar. Me peguei consumida pelo trabalho e estava ficando com um esgotamento tão forte, que perdi a vontade de fazer até essas coisas que me deixavam bem, que distraiam minha mente.

Estava evitando falar até com meus amigos mais próximos. Estava com raiva do meu celular. Foi aí que cansei de ser forte e assumi que estava precisando de ajuda.

Nunca levava muito a sério terapia, mas não era momento de fazer pré-julgamentos. Eu precisava de ajuda.

Para minha surpresa, eu adorei de cara a primeira sessão.Me senti confortável e disposta a melhorar seja lá o fosse preciso. Mesmo com a terapia, meu corpo dizia que tinha algo errado ainda e compartilhei com a minha terapeuta meus desconfortos e ela pediu que entrasse em contato com um psiquiatra. Como eu estava 100% focada em resolver meus problemas, marquei uma consulta e já comecei um tratamento. Detesto admitir que estou sendo medicada, mas entendi que eu precisava e que poderia ser apenas por um tempo, mas que os dias pela frente irão dizer isso.

Semana passada me vi no fundo do poço. Estava com uns calombos estranhos na cabeça e não eram de pancadas. Fiquei muito preocupada, mas consegui marcar uma consulta com uma neurologista e ela me deixou mais tranquila dizendo que era superficial, mas que mesmo assim ia me pedir uma ecografia. Consegui agendar logo para o outro dia, fiz o exame e já peguei o resultado na mesma hora. Realmente não era nada grave, mas perguntei o que poderia ter desencadeando esses nódulos e o médico que fez meu laudo disse: alguma inflamação, gripe, resfriado.

Lembrei que um lado da minha garganta estava inchado e dolorido. Aproveitei que já estava no hospital e fui na emergência ver se tinha otorrino atendendo e para minha sorte tinha. Aguardei os trâmites de triagem, preenchimento de ficha até que fui chamada para a consulta. A médica me fez várias perguntas que logo me liguei que era sobre sintomas de covid. Ela examinou, encontrou um outro nódulo no pescoço e me encaminhou para o teste de detecção de covid para descartar a possibilidade. O exame foi horrível (aquele dos cotonetes) e fui pra casa com um nó na garganta, uma receita e papéis de cuidados, caso alguns sintomas evoluíssem. No papel do exame dizia que levaria  5 dias para saber o resultado. E aí eu já estava doente.

Nosso psicológico é algo que pode nos destruir se não ficarmos em estado de alerta. Eu, que já não estava muito bem, fui para o fundo do poço. Comprei os remédios receitados estava tomando e sentido cada vez mais meu corpo piorar. Sentia uma queimação no peito horrível, estava fraca, só ficava deitada, chorando e dizendo que não queria morrer. 

O resultado do exame ficou pronto antes do esperado e deu negativo. Como dizia que nos estágios iniciais poderia dar uma falso negativo, eu não acreditei no negativo. Continuava acreditando que estava com covid e que poderia morrer. Fiquei obcecada com a ideia de entrar para estatísticas de mortos. Eu não queria me despedir do Duda, das minhas gatas, dos meus amigos, dos meus pais. Eu queria o Duda ao meu lado, mas ao mesmo tempo queria longe por que não queria contaminar. Eu queria minha mãe pra cuidar de mim, pra me dar colo, mas ao mesmo tempo não poderia colocar a saúde dela em risco. 

Nesse momentos de loucura passaram muitas coisas pela minha cabeça. A primeira: onde foi que eu errei? Eu quase não saí de casa, quando saí fui extremamente neurótica com higiene de produtos e das mãos. Já me sentia a pessoa mais azarada do mundo. Segundo: é uma doença solitária. Você precisa se manter longe, ter tudo separado e uma série de cuidados especiais.Terceiro: ficava imaginando velhinhos sozinhos ou em casais tendo que passar por isso.

A otorrino deixou o contato dela e conforme eu dizia os sintomas que estava sentido, recebia uma mensagem automática dizendo que qualquer piora nos sintomas iniciais ou novos sintomas era para voltar na emergência para uma nova avaliação e exame.E foi o que eu fiz.

Domingo corri pra emergência do hospital, que estava bem vazia, passei pela triagem e logo fui para a consulta. Não foi a mesma médica, mas relatei desde o aparecimento dos nódulos na cabeça até o motivo de ter me levado de volta à emergência. Falei do meu mal estar, dificuldade para respirar, queimação e dor no peito e falei do teste negativo e que eu não confiei nele. Ela olhou bem na minha cara, disse que eu não estava tendo sintomas de covid e o que eu estava tendo era uma crise de ansiedade. Falei que tinha avisado para minha psiquiatra que havia parado de tomar os remédios e a médica falou: você vai entrar em contato com ela imediatamente e voltar para o seu tratamento. Minha reação era apenas uma: chorar copiosamente. Ela me levou na enfermaria, me deu rivotril e me deixou ali por um tempo. Voltei para o consultório dela para ser liberada e ainda chorando pedi: porque vocês não olham meu pulmão?. E prontamente ela disse: é isso que você quer? Então vamos olhar. Fiz o raio x e acho que vocês já imaginam o resultado: não deu absolutamente nada.  

Fui pra casa mais aliviada, entrei em contato com a minha psiquiatra, ela fez alguns ajustes de remédios e agora é vida que segue.

Como disse lá no primeiro parágrafo, eu gostaria de ter começado a escrever em março, mas antes tarde do que mais tarde.

E se o dono ou dona do título já existir, certamente pensou como eu: quando a gente divide o fardo com alguém, ele fica um pouco mais leve.

Obrigada por chegarem até aqui.


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Por Ingrid

Sou cariúcha que não curte praia e adora chimarrão, casada com o Duda e mãe de duas gatinhas. Meus verbos preferidos: viajar, pechinchar, comer, cozinhar, falar, criar. =)